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março 10, 2018

Cama


desenho sobre a cena final de Fight Club
(poderá ter direitos de autor)

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a húmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.

Carlos Drummond de Andrade
em "O Amor Natural"

Olho para aqui, e vejo, que além da concretização física do amor não se limitar a uma cama, vejo que o amor é muito de liberdade. Começando pelo facto de poder ser platónico, à liberdade de ser secreto, felizmente doentio, corporal, sem tempo e espaço confinados a uma qualquer cama. Mas as pessoas tendem a normalizá-lo, a seguir regras sociais como o convênio namoro, casamento, filhos, a fazer dele uma casa... Algo que nasceu para ser livre.

E agora me lembro, nunca tivemos uma cama que fosse nossa.


fevereiro 11, 2018

Invento-te

Achaste por bem arruinar-me o domingo. Vi-te, senti-te, como naquele beijo fugido. Vejo-te no sonho.Acordo nervoso, cansado. O dia está condenado, o teu rosto vai e vem da frente dos meus olhos. Todo o dia. É no fumo de um cigarro de conforto que vejo o teu sorriso, e me lembro do soneto de Ary dos Santos...

Soneto de Mal Amar

Invento-te recordo-te distorço 
a tua imagem mal e bem amada 
sou apenas a forja em que me forço 
a fazer das palavras tudo ou nada. 

A palavra desejo incendiada 
lambendo a trave mestra do teu corpo 
a palavra ciúme atormentada 
a provar-me que ainda não estou morto. 

E as coisas que eu não disse? Que não digo: 
Meu terraço de ausência  meu castigo
meu pântano de rosas afogadas. 

Por ti me reconheço e contradigo 
chão das palavras mágoa joio e trigo 
apenas por ternura levedadas.




  • Jose Carlos Ary dos Santos

maio 20, 2017

branco gasto


Gastão de Brito e Silva,


acordei devagar. a lentidão era movida pela desconfiança. havia um cheiro que me lembrava as velhas drogarias. o lençol áspero, ocre, lavado, mas gasto. a colcha em amontoado aos pés, usada do tempo, em branco gasto. a cama tinha umas grades laterais, recentemente pintadas, de branco, mas sem esconder as falhas do metal corroído. o tecto, branco, de cantos amarelos do tempo. rodei a cabeça para a direita e logo vi um pequeno armário em metal branco. o quê, quem, me pôs ali. a cabeça dói, e o branco gasto contribuí para alienação. vejo homens deitados em camas velhas, os gemidos não param. tenho umas calças brancas. quem me vestiu. nasce em mim uma dor no peito. dobro-me em posição fetal, faço força para evitar as lágrimas. estou sozinho. abandonado. porquê. só há branco gasto, gemidos, um cheiro químico. quero chorar. apetece-me gritar. pressinto a chegada de alguém. uma mulher de branco imaculado, uma touca, um tabuleiro. fico com medo, não consigo articular palavra.
- o menino vai tirar sangue. depois mostro-lhe o chuveiro.
- onde está a minha mãe - balbuciei.
...

hospital santa maria.
desde então cultivo um medo de espaços onde predomina o branco. detesto, sinto pavor de hospitais e similares, e de batas brancas fujo. hoje estou bem melhor, e já vejo melhor a serenidade do branco.




Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis, de Fernando Pessoa
[1923]