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junho 13, 2017

O maior

Retrato de Fernando Pessoa
por Almada Negreiros

Parabéns Fernando, 
Alberto, Ricardo, 
Álvaro e Bernardo!

Bernardo, logo, quando na alegria do isolamento, que provavelmente já é outro dia, temos absinto marcado no livro do costume.


"... não há saudades mais dolorosas do que das coisas que nunca foram."
Bernardo Soares 
in Livro do Desassossego











maio 20, 2017

branco gasto


Gastão de Brito e Silva,


acordei devagar. a lentidão era movida pela desconfiança. havia um cheiro que me lembrava as velhas drogarias. o lençol áspero, ocre, lavado, mas gasto. a colcha em amontoado aos pés, usada do tempo, em branco gasto. a cama tinha umas grades laterais, recentemente pintadas, de branco, mas sem esconder as falhas do metal corroído. o tecto, branco, de cantos amarelos do tempo. rodei a cabeça para a direita e logo vi um pequeno armário em metal branco. o quê, quem, me pôs ali. a cabeça dói, e o branco gasto contribuí para alienação. vejo homens deitados em camas velhas, os gemidos não param. tenho umas calças brancas. quem me vestiu. nasce em mim uma dor no peito. dobro-me em posição fetal, faço força para evitar as lágrimas. estou sozinho. abandonado. porquê. só há branco gasto, gemidos, um cheiro químico. quero chorar. apetece-me gritar. pressinto a chegada de alguém. uma mulher de branco imaculado, uma touca, um tabuleiro. fico com medo, não consigo articular palavra.
- o menino vai tirar sangue. depois mostro-lhe o chuveiro.
- onde está a minha mãe - balbuciei.
...

hospital santa maria.
desde então cultivo um medo de espaços onde predomina o branco. detesto, sinto pavor de hospitais e similares, e de batas brancas fujo. hoje estou bem melhor, e já vejo melhor a serenidade do branco.




Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis, de Fernando Pessoa
[1923]