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outubro 04, 2017

poesia pura

©Conlin Finlay
Rwanda 1994


- Não sei fazer poesia, sinto-me ridículo, exposto. Gosto de ler. Mas aquilo tem regras, não gosto de regras a escrever.
- Não sabes fazer poesia? Não tens reparado nos teus filhos... O que achas que são? Serão sempre o teu melhor poema.

As crianças serão, provavelmente, o melhor poema do Homem. É preciso que o Homem o saiba.

agosto 21, 2017

tempo, certo

© Eugene Richards

Havia ali deleite, os olhos a brilhar, o sorriso aberto a escutar a conversa, mas sem se desfocar do prazer em mãos. O ar guloso de uma criança a comer um gelado chega à obscenidade. Tenho saudades. Hoje, como gelados, mas não chego aquela alegria. Experimentei o escorrega de água, mas não cheguei nem perto do prazer e da efusividade da criança. Tenho saudades de ser criança. Ou será que tudo tem o seu tempo? Tudo tem o seu tempo. Chamam-lhe vida. Que nostalgia me atacou. Não confundir com tristeza, é só saudade. Esta não tem que ser triste. Recordei ainda na adolescência as manhãs na esplanada do parque a ler o DN, e as tardes a ouvir música e a ler. E se o dia estava nostálgico, melhorou, pois à noite fui ver GNR. Recordar Vídeo Maria, Efectivamente, Homens Temporariamente Sós ou Morte ao Sol. A voz do Reininho já lá não vai, mas a banda toca melhor que nunca.

Ficas a aprender
Mais vale nunca
Nunca mais saber
Mais vale nada 
Nunca mais beber
Mais vale nunca mais crescer

Agora é a doer
Mais vale nunca 
Nunca apetecer
Mais vale nada 
Nunca escolher
Mais vale nunca mais crescer




mais vale nunca, GNR


agosto 18, 2017

opções

© Frans Lanting

 objectivos, ideias e vontades a concretizar.

1-comprar uma mota, tipo Harley, e palmilhar alcatrão sem fim

2-ir a Nova Iorque torrar dinheiro em bares a beber whiskey e ver jazz de improviso, não há como aqueles bares nas caves dos prédios velhos.

3-aprender a tocar piano

Este post funciona como um processo de interiorização de uma ideia.

Entretanto, Setembro está aí, a viagem por decidir... O ano passado Madrid foi soberbo. Este ano há dúvidas, muitas dúvidas.

Loucuras, intermitentes.

Se bem me conheço, vou juntar o dinheiro para a Harley, e no fim acabo em Nova Iorque no jazz obscuro e divino. O piano é um caso sério.

agosto 17, 2017

ridiculo

© JR
Holy Triptych

Hoje
Há qualquer coisa de estranho nas pessoas que se auto convencem que são, ou estão, felizes.

A felicidade além de efémera, é algo ao alcance de poucos.
Não digo que é impossível. 

O melhor exemplo é a necessidade de se mostrar publicamente que se está feliz através das redes sociais, publicando fotos do amor da vida e dos lugares onde se está (ou esteve). Procurar  assim a aceitação social, medido pelo número de gostos dos outros convivas sociais. Por vezes, estes gestos ganham contornos sinistros, e de algum voyeurismo.

É estranha esta necessidade de se afirmar mais normal socialmente que os demais.

Este querer parecer ser, é ridiculo.

É, mas não seremos todos?

agosto 05, 2017

perguntas


© epsilon delta
fotografia digital


De onde me vens?

Do cheiro da terra molhada, após a chuva.

Do sentir dos pés a enterrar na areia mole, tapados pela espuma do mar maior.

Da alegria do cansaço das corridas ao nascer do sol.

Do som poderoso das ondas a escavar as rochas mesmo ao lado da minha praia.

Do silêncio bom de ficar em estaca a olhar a serra da pedra.

Do prazer de ser engolido pelo nevoeiro imaginando a nossa nuvem.

Porque te vejo eu em tudo o que amo?

Porque não te vejo eu?


julho 18, 2017

o meu melhor lençol


é no silêncio,
que só a noite dá,
que recordo o meu melhor lençol de seda.
era a tua pele em repouso
sobre o meu peito.
a tua pele e o meu silêncio,
que só a noite me dá.

a tua pele o meu melhor lençol.


© Albert Watson

junho 22, 2017

Dois loucos da Cuca

© Olle Carlson

ando numa fase de guardar todos os pedaços de riqueza que encontro. felizmente nem tudo é físico. este espaço é dedicado a loucuras que enchem a alma e o coração... este meu sentir deve estar relacionado com a estação do ano. Não posso não guardar as mágicas palavras que a Cuca, a Pirata disparou do seu galeão, e que certamente todos leram.


Dois loucos

Quando a guerra chegou e as gentes partiram com a triste roupa no corpo, quando os pianos e os lustres e os espelhos foram abandonados ao pó e ao saque, quando os invasores encheram as ruas e acenderam fogueiras no soalho das salas, quando as colunas de fumo afugentaram as últimas aves, quando as bombas destruíram todos os muros e o sol foi oculto por milhões de partículas de caos, sobraram, ainda, uns metros de jardim de laranjeiras no cimo do monte.
E nós permanecemos deitados, na imobilidade eterna de uma cama de baloiço de seda branca, sob a sombra das duas ou três árvores sobejantes, distraídos do ruído dos homens pelas notas de jazz, concentrados na métrica do.poema de fim de tarde, alheados da destruição pela beleza das asas de uma borboleta, protegidos do horror pela incapacidade de o representarmos.
E enquanto a guerra nos lambia os pés, espantava-nos o assombro dessa aurora lilás que sonhávamos ter nascido apenas para nós.
Foi assim que nos tornámos imortais.

de Cuca, a Pirata





junho 21, 2017

Giulietta

© Rankin
Black Tuuli II, 2006



Hoje não temos mais nada só a Giulietta, mas queira aguardar, por favor. Sentei-me a imaginá-la, latina e jovem. Vi-a de preto, lasciva, libidinosa, obscena, e a redundância dos adjectivos foi crescendo em mim. A brisa da ventoinha de serviço acalmou o ímpeto interior. O salto alto, firmeza do andar, a cara dos homens perante o desfile de tamanha beleza, a certeza de quem sabe que impressiona. Uma brisa no seco do ar. Senti a sua pele, seda, o cheiro, fresco. Agora distante, espero que os meus olhos não me tenham denunciado. Vamos então? A Giulietta era branca, jovem e tinha quatro pneus novinhos, era italiana, tinha um colo agradável, e já não combina de todo comigo.

certamente que tais pensamentos decorrem do solstício, que sejas bem vindo, porque a seguir vem melhor.

maio 26, 2017

silêncio

Sebastião Salgado
Sahara, 2009

um dia o mundo vai acabar
e já não tenho o teu cheiro,
já não sinto o teu toque.
nunca mais vou olhar
os únicos olhos do mundo
que me vêem por dentro.
encontrei no mundo o par perfeito,
e tu não estás aqui.
sabes que não há
metáfora de amor que nos explique,
e que a nossa história é demasiado grande,
para ser um hipérbole. 
sabes que poderia escrever
um livro inteiro de palavras sobre ti,
e não conseguir gritar a grandeza que és para mim.
sabes a dor que carrego? saberei eu da tua dor...
é ridículo este texto.
e assim vês,
não consigo escrever sobre ti.
és grande demais no meu coração,
e por isso não cabes no aparo.
um dia o mundo vai acabar
e o teu rosto será a minha última visão.

[Set.2010]


Anos de espera por ouvir novamente a tua voz, e o telefonema foi quase todo silêncio. E agora os dias têm passado e a minha cabeça só ouve o teu silêncio, e o meu silêncio. Hoje pensei que tamanho silêncio entre nós é o maior sinal que tudo está igual. Por tudo entenda-se o maior amor de sempre. Pedi desculpas por ter fugido. Limitei-me a escutar o teu silêncio. Ando irritado com o silêncio. Deveria ter-te dito que ainda hoje te sinto tal e qual, que até hoje não houve quem me desse o que tu deste. Como estou irritado com tanto silêncio! Vais me ligar de volta? Quem escreveu este nosso guião? Eu tenho todas as palavras para te dizer e fiquei mudo! Nem umas parcas palavras consigo alinhar. E o que temos para contar? Em 14 anos o que mudou?

Vou acreditar, que o teu e o meu silêncio foi a única maneira de gritarmos o nosso amor. Vou.


[...]

Ou a tentativa gorada de explicar um silêncio.











maio 20, 2017

branco gasto


Gastão de Brito e Silva,


acordei devagar. a lentidão era movida pela desconfiança. havia um cheiro que me lembrava as velhas drogarias. o lençol áspero, ocre, lavado, mas gasto. a colcha em amontoado aos pés, usada do tempo, em branco gasto. a cama tinha umas grades laterais, recentemente pintadas, de branco, mas sem esconder as falhas do metal corroído. o tecto, branco, de cantos amarelos do tempo. rodei a cabeça para a direita e logo vi um pequeno armário em metal branco. o quê, quem, me pôs ali. a cabeça dói, e o branco gasto contribuí para alienação. vejo homens deitados em camas velhas, os gemidos não param. tenho umas calças brancas. quem me vestiu. nasce em mim uma dor no peito. dobro-me em posição fetal, faço força para evitar as lágrimas. estou sozinho. abandonado. porquê. só há branco gasto, gemidos, um cheiro químico. quero chorar. apetece-me gritar. pressinto a chegada de alguém. uma mulher de branco imaculado, uma touca, um tabuleiro. fico com medo, não consigo articular palavra.
- o menino vai tirar sangue. depois mostro-lhe o chuveiro.
- onde está a minha mãe - balbuciei.
...

hospital santa maria.
desde então cultivo um medo de espaços onde predomina o branco. detesto, sinto pavor de hospitais e similares, e de batas brancas fujo. hoje estou bem melhor, e já vejo melhor a serenidade do branco.




Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis, de Fernando Pessoa
[1923]


















maio 18, 2017

Às vezes

untitled (river), 2003,
by Teun Hocks,
toned silver gelatin photograph,
with oil paint

Sabes a beleza da música é, tão só, transportar-nos para nós mesmos, é um espelho. Às vezes do C.N.Gil, entra em mim como uma seta. É aqui que a encontras, clica não tenhas medo. Tanto me faz chorar, porque somos nós ali, como sorrir de alegria pela nossa história. Eu vi-te quando ninguém te viu, eras só uma ideia, um simples laivo de luz, e tu eras a única que me levava pela mão. Às vezes fugia de ti, com medo, e magoava-te. Hoje choro por ti, queria o teu abraço e o teu regaço, e já cá não estás. Mereço. Fiz-te mal com palavras.

Às vezes sou como o pintor da foto. Olho um dia bonito e um rio calmo, e desenho uma noite negra e um mar revolto. Só às vezes.


Às vezes


Às vezes és uma ideia que passa por entre laivos de luz
Às vezes és uma rua cheia de pessoas entregues a si
Às vezes pegas-me pela mão,
És tu quem me conduz
Às vezes largas-me e afastas-te de mim

Nem sempre estou assim tão perto de ti
Nem sempre tão longe
Que precises de gritar por mim
Nem sempre te amo
Nem sempre te quero
Nem sempre preciso de ti
Nem sempre eu choro
Mas hoje eu choro por ti

Às vezes só queria o teu abraço
Às vezes só queria deitar-me no teu regaço
Às vezes só queria olhar nos teus olhos
E descobrir neles minh’alma
A minha vida
Meus sonhos

Nem sempre estou disposto
A ouvir da tua boca
Palavras cruéis que magoam
Nem sempre eu posso
Deixar-me ao abandono
Enquanto as palavras


Soam


Mas importante é não esquecer 
que às vezes ajudar é simples.


Filhos do Desespero, C.N. Gil
capa de Isabel Pires

Bio
This album was recorded, mixed, and produced, with the help of a lot of anonimous people from portuguese blogs, turned in to a CD. It can be obtained either by transfering the value + mailing or a donation proof to UNICEF + mailing

All details (in portuguese):
http://filhosdodesespero.blogspot.pt/

Please enjoy, share and help children all over the world to have a better life.

Thank you,
C. N. Gil

Forte abraço para o C.N.Gil




maio 17, 2017

essência

nudes
Billy Kidd


um agarrar forte que nos leva
para dentro, à essência.
como a onda que nos esmaga,
enrola em violento bailado,
sem ar,
para o fundo do oceano,
silencioso.
assim é o teu abraço,
e o meu em ti.
quando és mulher, plena,
logo nos unimos com a força
da onda, sem ar, ficamos um só corpo.
ouço o teu respirar ofegante,
a levar-me, lento, para o nosso fundo,
até ao silêncio, nosso, só nosso, a essência.

...

ou quando vejo a força das ondas, e penso no teu orgasmo do princípio ao fim.