Enquanto o mundo dorme a sesta, pego no Evangelho segundo Jesus Cristo, do José Saramago, na toalha, cigarrilhas e Ray Ban, encho o peito de ar, e permito-me uma tarde de ócio vazio na piscina.
O ambiente está calmo, algo geriátrico em russo, e recheado de quarentas, alguma selectividade, alguns livros, poucas crianças e um fantástico azul no céu e no reflexo do tanque de banhos.
Não me sai da cabeça, "eu quero ser amado como o barro nas mãos do oleiro".
Falava a Isabel Pires de tatuagens, muito mais em moda que em anos passados, e também eu constato que não tenho opinião na matéria. E parece-me que assim vai continuar, afinal o ócio é isso mesmo.
O ócio tende à parvoíce, e reparo no ritual libidinoso das senhoras que saem da piscina e apertam os peitos para escorrer a água do biquíni.
A vizinha da cama ao lado aparenta um estado metafísico agarrada a um livro. Há qualquer coisa de neurótico na senhora, nova ainda, e com medo de ser notada, está enterrada na leitura. Não consigo ver que livro é, apenas o nome do autor em letras garrafais - Eckhart Tolle. Pensei, talvez seja um autor novo que desconheço, e faço o uso do telemóvel para saber quem é o senhor. Desilusão, é um autor de livros sobre iluminação espiritual... O que bem visto enquadra-se no quadro geral da senhora vizinha.
Volto ao Evangelho, livro do qual estou a gostar porque sendo eu pessoa de fé, acho muito bom a visão de quem não a tem.
Mas isto requer concentração, que o ócio não me dá. Volto a espreitar mais um espremer de biquíni... dou a tarde como perdida.
Pai, anda lá a água está boa, vamos fazer umas bombas? O ambiente da piscina não pede miúdos a fazerem mergulhos barulhentos, e se calhar, era mesmo isso que estava a faltar. As crianças, verdadeiros génios no que ao quebrar do ócio dizem respeito. Vamos a isso!
Ao sair de uma bomba fenomenal que atingiu os geriátricos russos, ouço o tipo do piano tocar algo que me animou. Tango pois claro, o que deixa antever uma boa seroada.