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outubro 30, 2017

o momento

©Jack Vettriano

Naquela noite abraçaram-se e choraram. Uma intemporal história de amor, momentos únicos na vida de alguns. Ela que o amou como a ninguém, ele que a amava mas estava amarrado a outra vida. Nesse noite ela disse basta, ia fugir, ele pediu tempo sabendo que não o tinha. Entre juras de amor, choraram lágrimas profundas. Era o fim. Noite que jamais se repetiria e que jamais seria contada a alguém. Essa noite abriu uma cicatriz que não se ia fechar. Iria largar sangue de tempos a tempos, cada vez menos, mas sem nunca fechar. É o momento duro dos amores que não são, ou não podem(?), ser concretizados.

Deste dramático momento nascem muitas histórias. O que foi feito dela e dele? Como lidam com aquela cicatriz sangrante? Que história conduziu àquele momento? Enfim, um mundo de possibilidades.

Certo é que aquele momento marcará sempre as vidas deles, o modo como irão viver o resto das suas vidas.
Demos largas à imaginação.

Gosto tanto de conhecer histórias, e elaborar planos a partir daí.  Os porquês e os como da vida das pessoas fascinam-me. Não no sentido mórbido de voyeurismo.

As esplanadas tardias deste Outono que não chega, onde me deleito na observação de quem passa, é terreno fértil para minha sequiosa imaginação. 
Mas faz-me falta o Outono, muita.

agosto 23, 2017

Memória tal como...

© Jack Vettriano

Memória tal como, ou o mar, esse velho amigo

Faz vários dias já, que passam, e não me lembro de ti. Como um calmo perder, estás a passar a memória. Logo tu, que deverias ter sido imaginação. Como o fumo que expulso, intenso no início, para logo se dissipar. É sempre a ver o mar, esse velho amigo. Como a espuma das ondas que atraca em terra firme, branca e forte, e logo desaparece a meus pés. Como o contar da cadência das ondas, que começo enérgico para me perder na quarta ou na quinta. O mar, esse velho amigo, que me puxa ao recôndito da alma. Que assim seja e continue.

julho 15, 2017

palavras


© Jack Vettriano


As palavras são tudo. Tu já foste tudo, e hoje são as palavras tudo o que tenho para te dar. Dei tudo e até as minhas palavras te dei.

As palavras são difíceis de eternizar, as minhas já as vi voar sobre um dourado campo de trigo, baixinho e em surdina, leves, livres como as promessas em palavras ao teu ouvido.

As palavras aquecem-me no Verão e arrefecem-me no Inverno, mas é no Outono que mais gosto de as desenhar, e na Primavera de ler as palavras de outros equinócios.

As palavras deviam brotar em mim, do coração até à ponta dos dedos, as do cérebro morrem novas, sozinhas. O meu coração devia ser a minha máquina de escrever, e a tua pele o meu papel. A esta hora dizes que eras papel químico, que usei na pele de outra. É mentira! As mulheres são todas diferentes, merecem palavras diferentes. Não chores, se tens as minhas palavras, tens tudo o que tenho para dar, pouco e pobre, mas é tudo.

Quem é dona dos restos do meu coração, é dona das parcas palavras que desajeitadas de lá saem até às ponta dos dedos.

As minhas melhores palavras, não foram ditas nem escritas, iam agarradas naquele beijo, aquele em que te disse tudo sem nada escrever...

bésame mucho
por Cesária Évora



julho 12, 2017

conto de princesa

yesterday's dreams
by Jack Vettriano

Quando te conheci falavas francês, espanhol e inglês, tocavas piano, e ouvias jazz. Tinhas uma educação aristocrática, etiqueta, e uma elegância notável.
Quando te conheci eras plebeia, vivias feliz no meio do povo. Mas sempre com um pé nos castelos de reis e princesas.
Escolheste este jovem para o teu conto de fadas de princesa que se apaixona pelo rapaz do povo, e quer levá-lo para viverem felizes para sempre.
Mas isto são contos, e os contos são, na maioria das vezes, e por maioria de razão, de difícil concretização além de bonitas capas e reforçadas lombadas.

[anos depois]

Anos depois já tinhas lido todos os clássicos, Saramago é que não, era comunista. Anos depois eras uma mulher princesa, amarrada num castelo com bebés, e com um príncipe tirano. Mas estavas mais elegante que nunca. Não resistimos a tentar, mais uma vez, a fazer do conto vida real...

Queria dizer-te que sempre gostei dessa tua educação, elegância e glamour.

Plebeus na sua vidinha, e aristocracia na sua vida, e as histórias de encantar ficam nos livros.

Claro que não disfarço, afinal ainda ontem me dizias que não há duas sem três.