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janeiro 27, 2018

abismos

nascemos e caímos
o abismo sem fim
fundo, frio
é a primeira visão
da finitude humana
o instinto
é agarrar um dos ramos laterais
daqui em diante a vida será subir
de ramo em ramo
há quedas
até que tenhamos força
para agarrar outro ramo
voltamos a subir
voltamos a cair
o fundo nunca ninguém o viu
nem vai ver
a morte liberta
são as asas
e fomos para longe

sobre as memórias estranhas que ficam de um sonho, que falta faz o bom dormir! digo fomos porque apareceste no fim a voar comigo.

Mazgani - The Poet's Death


janeiro 04, 2018

que dar baste

Não são os anos que nos fazem. O que nos faz, o que nos define, é o bem que a outros fazemos, cuja alegria deverá bastar. Se o querem balizar em termos temporais, que o seja, que 2018 e os outros, sejam o tempo em que alegria do dar de nós a outros nos baste.

Alegre 2018 a todos os que por aqui passam os olhos.

Muito me tem divertido ouvir os covers de famosas músicas, transformadas em jazz e swing. São os PostModern Jukebox, e alegria das alegrias estarão em Portugal em Março.

Já o ensaio "Quem disser o contrário é porque tem razão" de Mário de Carvalho é fantástico para quem se quiser iniciar na arte da escrita de ficção, mas também para quem só quer saber mais. Tem excelentes referências literárias, e explica todas as dificuldades de se criar uma história. Foi uma surpresa muito agradável!


Postmodern Jukebox
Canal YouTube:


Mário de Carvalho
Quem disser o contrário
é porque tem razão






dezembro 20, 2017

Onde andas?

Muitos me perguntam onde tenho andado... Bom, andei no jazz.

Tive a oportunidade de beber um copo com estes senhores no âmbito de um concerto que encerrava uma tournée pela Europa. O Aaron Goldeberg, além de excelente companhia, fala um português com sotaque brasileiro, que permite uma excelente conversa, fruto de uma relação amorosa com uma brasileira no passado, uma "brasileira carioca" dizia. Todos maravilhados com a beleza de Portugal, tão ou mais como eu quando os ouvi.


Aqui fui no escuro, nunca tinha ouvido nada da Patricia Barber. Estou rendido à sua voz gutural, e um estilo interpretativo muito pessoal, a fugir do convencional. É marcante as suas expressões de prazer, quase libidinosas. Abaixo, a música com a qual terminou o concerto que vi. Hora e meia de puro prazer.




Light My Fire
by
Patricia Barber



agosto 21, 2017

tempo, certo

© Eugene Richards

Havia ali deleite, os olhos a brilhar, o sorriso aberto a escutar a conversa, mas sem se desfocar do prazer em mãos. O ar guloso de uma criança a comer um gelado chega à obscenidade. Tenho saudades. Hoje, como gelados, mas não chego aquela alegria. Experimentei o escorrega de água, mas não cheguei nem perto do prazer e da efusividade da criança. Tenho saudades de ser criança. Ou será que tudo tem o seu tempo? Tudo tem o seu tempo. Chamam-lhe vida. Que nostalgia me atacou. Não confundir com tristeza, é só saudade. Esta não tem que ser triste. Recordei ainda na adolescência as manhãs na esplanada do parque a ler o DN, e as tardes a ouvir música e a ler. E se o dia estava nostálgico, melhorou, pois à noite fui ver GNR. Recordar Vídeo Maria, Efectivamente, Homens Temporariamente Sós ou Morte ao Sol. A voz do Reininho já lá não vai, mas a banda toca melhor que nunca.

Ficas a aprender
Mais vale nunca
Nunca mais saber
Mais vale nada 
Nunca mais beber
Mais vale nunca mais crescer

Agora é a doer
Mais vale nunca 
Nunca apetecer
Mais vale nada 
Nunca escolher
Mais vale nunca mais crescer




mais vale nunca, GNR


julho 15, 2017

palavras


© Jack Vettriano


As palavras são tudo. Tu já foste tudo, e hoje são as palavras tudo o que tenho para te dar. Dei tudo e até as minhas palavras te dei.

As palavras são difíceis de eternizar, as minhas já as vi voar sobre um dourado campo de trigo, baixinho e em surdina, leves, livres como as promessas em palavras ao teu ouvido.

As palavras aquecem-me no Verão e arrefecem-me no Inverno, mas é no Outono que mais gosto de as desenhar, e na Primavera de ler as palavras de outros equinócios.

As palavras deviam brotar em mim, do coração até à ponta dos dedos, as do cérebro morrem novas, sozinhas. O meu coração devia ser a minha máquina de escrever, e a tua pele o meu papel. A esta hora dizes que eras papel químico, que usei na pele de outra. É mentira! As mulheres são todas diferentes, merecem palavras diferentes. Não chores, se tens as minhas palavras, tens tudo o que tenho para dar, pouco e pobre, mas é tudo.

Quem é dona dos restos do meu coração, é dona das parcas palavras que desajeitadas de lá saem até às ponta dos dedos.

As minhas melhores palavras, não foram ditas nem escritas, iam agarradas naquele beijo, aquele em que te disse tudo sem nada escrever...

bésame mucho
por Cesária Évora



julho 13, 2017

ócio

Two for Tango,
by Fabián Pérez ©

Enquanto o mundo dorme a sesta, pego no Evangelho segundo Jesus Cristo, do José Saramago, na toalha, cigarrilhas e Ray Ban, encho o peito de ar, e permito-me uma tarde de ócio vazio na piscina.

O ambiente está calmo, algo geriátrico em russo, e recheado de quarentas, alguma selectividade, alguns livros, poucas crianças e um fantástico azul no céu e no reflexo do tanque de banhos.

Não me sai da cabeça, "eu quero ser amado como o barro nas mãos do oleiro".

Falava a Isabel Pires de tatuagens, muito mais em moda que em anos passados, e também eu constato que não tenho opinião na matéria. E parece-me que assim vai continuar, afinal o ócio é isso mesmo.

O ócio tende à parvoíce, e reparo no ritual libidinoso das senhoras que saem da piscina e apertam os peitos para escorrer a água do biquíni.

A vizinha da cama ao lado aparenta um estado metafísico agarrada a um livro. Há qualquer coisa de neurótico na senhora, nova ainda, e com medo de ser notada, está enterrada na leitura. Não consigo ver que livro é, apenas o nome do autor em letras garrafais - Eckhart Tolle. Pensei, talvez seja um autor novo que desconheço, e faço o uso do telemóvel para saber quem é o senhor. Desilusão, é um autor de livros sobre iluminação espiritual... O que bem visto enquadra-se no quadro geral da senhora vizinha.

Volto ao Evangelho, livro do qual estou a gostar porque sendo eu pessoa de fé, acho muito bom a visão de quem não a tem.

Mas isto requer concentração, que o ócio não me dá. Volto a espreitar mais um espremer de biquíni... dou a tarde como perdida.

Pai, anda lá a água está boa, vamos fazer umas bombas? O ambiente da piscina não pede miúdos a fazerem mergulhos barulhentos, e se calhar, era mesmo isso que estava a faltar. As crianças, verdadeiros génios no que ao quebrar do ócio dizem respeito. Vamos a isso!

Ao sair de uma bomba fenomenal que atingiu os geriátricos russos, ouço o tipo do piano tocar algo que me animou. Tango pois claro, o que deixa antever uma boa seroada.

por una cabeza,
de Carlos Gardel



julho 09, 2017

falta tudo, portanto

peacock chair



Comprei um piano de cauda. Não que o saiba tocar. Nem desejo, de lhe tirar um fá ou um si. Tenho a vista de um décimo andar, que me leva longe, e que tem o mais brilhante espelhar da lua cheia na água. 
Falta a cadeira, para ver mar e o piano. 
Faltas tu a tocar sob o brilho da lua no mar.
Falta tudo, portanto.



©Chick Corea
solo piano portraits











junho 16, 2017

psycho killer (parte 2)

© Kelly Reemtsen

Duarte acendeu o isqueiro. O anjo aproximou-se e acendeu o cigarro. Confirmou que a voz de anjo conduzia mesmo a um anjo. Cabelo negro, brilhante, pouco abaixo do ombro, olhos verdes, lábios de contornos perfeitos. Um rosto que no seu todo emitia uma aura, como é expectável num ser divino. Vestido preto, pouco acima do joelho, e costas desnudadas de pele brilhante, parecendo seda.

- por favor, sirva-me outro, e outra bebida para a senhora.

O intuito era claro, perceber se de facto estava na presença de uma mulher, um anjo, ou era uma visão fruto do álcool.

- a senhora tem nome?
- Sara. Mas o nome não faz a pessoa. É o inverso, a pessoa é que faz o nome. Ou seja, é o que o faz que conta.
- pois é... Eu sou Duarte, e o que faço está à vista.
- não se martirize, conheço o género. O meu pai morreu dessa morte lenta.

Ficou aquele silêncio audível, cómico até, de duas pessoas que querem falar mas não sabem o que dizer, partilhado com sorrisos.

- sabes...
- não diga nada. Eu sou tola, e acabo sempre por me apaixonar por quem... enfim, por quem já tem problemas que chegue.

Duarte estava sem palavras. Um anjo apaixonar-se por ele? Afinal Deus existia, era o sinal. Tamanha beleza não precisava de palavras, não queria saber nada dela, só ama-la em seus braços.

- desculpe, isto é repentino. É um disparate, mas acho sempre que posso salvar pessoas, talvez por não ter salvo o meu pai.
- confesso que nem sei o que dizer...
- não diga nada, vamos começar do principio, por favor!

Neste mesmo instante, dois homens de gabardine creme aproximaram-se. Um deles algemou Sara. Num gesto repentino Duarte levantou-se, mas logo sentiu a mão do segundo homem a empurra-lo de forma ligeira para o banco.

- fique sentado, tenha calma.
- mas afinal que palhaçada é esta! - gritou Duarte
- Já lhe explico, acalme-se. Antunes leva-a para o carro.

Sara olhou para trás, para Duarte, e sorriu. Mandou-lhe um beijo.

- faz o favor de me dizer quem é, e o que é que se passa aqui?
- acabei de lhe salvar a vida...
- o Sr. é louco, e vai ter que se explicar.
- acalme-se se faz favor. Sou o Inspector I., trabalho na Polícia. Esta senhora é uma psicopata, e assassina. Estamos em crer que matou 6 homens, todos alcoólicos.
- matou? Como?
- seduzia-os. Levava-os para sua casa, drogava-os, e depois ainda com vida cortava-os aos bocados. É como lhe digo, acabei de lhe salvar a vida.

Duarte olhou para o barman, e fez sinal.

- mais um, puro, por favor.
- ouça o álcool vai matá-lo. Hoje salvei-lhe a vida, mas do álcool preciso da sua ajuda, preciso da sua vontade de viver.
- Inspector, estou cansado desse discurso moral. E afinal o que lhe interessa a minha vida?

Neste instante o Inspector já tinha virado costas. Mas Duarte ainda ouviu as suas palavras:

- Ainda há pouco pedias a Deus por sinais. Não consigo dar-te sinal maior.

Fim.



psycho killer
by
Talking Heads


bom seria que o Impontual escrevesse o epílogo desta pequena brincadeira.

talvez o whiskey fosse ordinário, e o Duarte alucinou. Mas mais cego é o que não quer ver, ou teve mais sorte que juízo, ou voçês é que sabem...

e se Deus existisse assim mesmo?













junho 13, 2017

psycho killer (parte 1)


©Kelly Reemtsen

Quando se tem um problema, uma dependência, de álcool, qualquer bar recôndito, numa qualquer cave de prédio, assume contornos de paraíso reconfortante. Foram os pensamentos de Duarte ao descer os degraus escuros, iluminados apenas pelo néon azul sumido que dizia "Bar". A fraca luz continuava no interior. Não prestou atenção ao seu interior, caminhou rápido para um banco alto ao balcão.  Puxou de uma nota, largou-a e disse:

- Whisky barato, e vá enchendo.

O barman, já grisalho, não largou o pano dos copos, fitou-o, e leu-o de cima a baixo, treinado pela experiência.

- Boa noite. Tem preferência de marca? Gelo?
- Não, e não é preciso gelo.

Enquanto servia, atalhou:

- Fechamos às quatro.

Reconheceu logo os traços de um alcoólico, a rapidez em ser servido, o alhear do espaço envolvente, a nota à frente, gestos e gestos já gastos à sua vista.

Duarte levou o copo à boca e logo sorriu. Só o cheiro forte já o acalmava, o sabor destilado encheu-lhe o corpo. Acalmou ao ver o fundo turvo do copo. Ganhou novamente o controlo das suas mãos trémulas.

- Peço desculpa. Boa noite. Podia servir-me outro?

Não levantou a cabeça do balcão em madeira gasta disfarçada com verniz, também ele já gasto. Tinha vergonha, da sua figura débil e dependente, da sua falta de maneiras, e no fundo do resto de homem em  que se tinha transformado.

- Aqui tem.
- Obrigado, agora já agradecia duas pedras de gelo.

Sempre sem tirar os olhos do copo, do balcão e agora do maço de cigarros que tinha pousado, Duarte sentia o corpo retomar à normalidade. A cabeça já não estava pesada, as mãos já não termiam. A música que passava era Sinnerman de Nina Simone. Duarte sorriu, lembrou-se do seu início: "oh Sinnerman, where you gonna run to?". Já sei meu Deus que sou pecador. Já sei, pensou. Devias mandar-me outros sinais, e não evidências. Pensar em Deus, pensar em como tinha chegado aquela cave, pensar em como a sua vida era ela própria uma cave escura, faziam doer a cabeça cansada, por isso resolveu levantar a cabeça e ver em volta, procurando distracção.

Rodou à direita. Era só mais um bar, escuro, com jazz rouco em colunas velhas. Uns quadros com fotografias de mestres como Miles Davis e Louis Armstrong. Meia dúzia de mesas pequenas, com candeeiros. Uma espécie de palco, um estrado, onde outrora tocaram aspirantes a mestres. Numa mesa um casal, trocam beijos e mãos, e gastam o pouco que sobra do rendimento. Noutra mesa, mais abastados, um casal gay que mantem distância física, mas que os olhos não escondem outras luxúrias.

Igual a tantos outros buracos negros, onde Duarte se arrasta faz dois anos, num suicídio lento, de comiseração degradante.

- Boa noite. Dá-me lume?

A meiguice da voz fez Duarte voltar-se rápido para a sua esquerda. Uma voz que indiciava a presença de um anjo.

(para continuar noutro post)


Sinnerman by
Nina Simone