junho 12, 2019

abraço

o teu abraço que mata. fiquei desossado, desumano, vincado, marcado, vazio, uma miragem do que outrora fui, sem alma, sem desejo.

desejo apenas, e teu, um abraço


"Para nascer uma canção ê
Para entender e saber como é
É preciso abrir a oração
Do juízo haver libertação
Pôr fogo na casa, deixar arder
Tirar a roupa e deixar ver
Oiço e logo escuto e logo nasço
Ter peito e espaço pra morrer
Morrer de abraço

Falar por cima do saber
Para fazer uma canção ê
É preciso o coração
Falar mais alto e reparar
Pequeno nada e alongar
Pôr fogo na casa
Ter peito e espaço pra morrer

E renascer...
E renascer...

Ter peito e espaço pra morrer

Morrer de abraços"

Música: Sara Tavares



junho 07, 2019

explicação

não sou de grandes explicações sobre mim. reparei que muitas almas (cristãs ou não) perdiam o precioso tempo humano a ler o intermitente loucura. e eu fui abrandando. não há de facto neste blog nada de interessante que se leia. nada. que me perdoem. o contrário já se verifica, muitos de vós são escritores de mão cheia, são fantásticos, uns conheço pessoalmente, outros ainda não, mas gosto muito da vossa escrita, e isso nunca deixei.

a vida é feita destes avanços. mudou muita coisa neste ano que passou. diria que a vista de trabalho mudou 180°, se a bússola não avariar. de resto, escrever sempre, com umas coisas a andarem por aí com outro nome que não este. este espaço, meu, muito pessoal, de memórias de escrita e de bloco de notas outras vezes, é e será sempre o sítio onde, e como diz a Isabel Pires: "... um lugar forrado a seda que ampara as palavras que nos apetece dizer e os sorrisos que deixamos cair.".

vai daí o tango continua e o gosto pelo cozinha também...

siga a viagem, que o tempo é curto, muito curto.

miguel bondurant

junho 06, 2019

vista

a nova vista assume agora os tons do campo. a calma do verde dá lugar ao monocórdio cinzento de prédios sem nexo, desgarrados e alguns gastos. a grande janela dá força a quem tecla e fala ao telefone. o tom de enfado dá lugar a agradáveis conversas, mesmo em inglês, a alegria na voz faz-se notar. da janela, agora há janela, grande do estilo moderno de casas de linhas direitas, vislumbra oliveiras, arbustos, casais de melros, corvos, bicho esperto, gatos e tordos. do lado do fumar impõe-se a serra, que não sendo grande, ao perto é visão imponente. os passeios lá cima, são agora bálsamos. talvez por deslumbre de principiante tudo parece belo, seja com azul mágico em dias de sol, seja com o vento rasgado e chuva grossa. 

não obstante, órfão de ti. 

miguel bondurant

junho 05, 2019

sexto

e é verdade, tenho a capacidade de convivendo numa base diária com alguém de descobrir quase tudo sobre ela. lembram-se das análises de Sherlock Holmes? mais ou menos isso. por vezes limito-me a fazer as algumas perguntas discretas só para confirmar as minhas análises. é estranho, é. curiosamente é mais fácil no masculino que no feminino.

que me perdoem este facto absolutamente inócuo sobre mim.

às vezes, com colegas, chega a ser assustador. eu não partilho o que descobri. eu não acredito em "sexto sentido".

miguel bondurant

março 18, 2018

dores

Eleven A.M.
1926
Edward Hopper


...forrou o coração de cinzento, e com lages de granito o trancou. as lágrimas ecoavam na seda, outrora nossa, rivalizando com cadência desordenada da chuva grossa. o estremecer da trovoada lá fora confundia-se na ensurdecedora dor do sangue nas veias, que pouco corria.
da dor que ainda circula, e não se consegue traduzir, quando o raio de sol me reflecte a luz do teu rosto.
da dor que a medicina não cura, que eu não pedi, que vai e vem dona de si mesmo, como tu outrora.
da dor que... aqui semeaste e sempre germina.

tirado dos caderninhos longínquos, outras vidas portanto.