junho 22, 2017

Dois loucos da Cuca

© Olle Carlson

ando numa fase de guardar todos os pedaços de riqueza que encontro. felizmente nem tudo é físico. este espaço é dedicado a loucuras que enchem a alma e o coração... este meu sentir deve estar relacionado com a estação do ano. Não posso não guardar as mágicas palavras que a Cuca, a Pirata disparou do seu galeão, e que certamente todos leram.


Dois loucos

Quando a guerra chegou e as gentes partiram com a triste roupa no corpo, quando os pianos e os lustres e os espelhos foram abandonados ao pó e ao saque, quando os invasores encheram as ruas e acenderam fogueiras no soalho das salas, quando as colunas de fumo afugentaram as últimas aves, quando as bombas destruíram todos os muros e o sol foi oculto por milhões de partículas de caos, sobraram, ainda, uns metros de jardim de laranjeiras no cimo do monte.
E nós permanecemos deitados, na imobilidade eterna de uma cama de baloiço de seda branca, sob a sombra das duas ou três árvores sobejantes, distraídos do ruído dos homens pelas notas de jazz, concentrados na métrica do.poema de fim de tarde, alheados da destruição pela beleza das asas de uma borboleta, protegidos do horror pela incapacidade de o representarmos.
E enquanto a guerra nos lambia os pés, espantava-nos o assombro dessa aurora lilás que sonhávamos ter nascido apenas para nós.
Foi assim que nos tornámos imortais.

de Cuca, a Pirata





junho 21, 2017

Giulietta

© Rankin
Black Tuuli II, 2006



Hoje não temos mais nada só a Giulietta, mas queira aguardar, por favor. Sentei-me a imaginá-la, latina e jovem. Vi-a de preto, lasciva, libidinosa, obscena, e a redundância dos adjectivos foi crescendo em mim. A brisa da ventoinha de serviço acalmou o ímpeto interior. O salto alto, firmeza do andar, a cara dos homens perante o desfile de tamanha beleza, a certeza de quem sabe que impressiona. Uma brisa no seco do ar. Senti a sua pele, seda, o cheiro, fresco. Agora distante, espero que os meus olhos não me tenham denunciado. Vamos então? A Giulietta era branca, jovem e tinha quatro pneus novinhos, era italiana, tinha um colo agradável, e já não combina de todo comigo.

certamente que tais pensamentos decorrem do solstício, que sejas bem vindo, porque a seguir vem melhor.

psycho killer (epílogo)

© Paolo Troilo

todas as histórias deviam ter um epílogo, escrito ou imaginário.

esta tem, e com um agradecimento muito especial ao ilustre Impontual, cujo selo de qualidade é de todos conhecido.


psycho killer (epílogo)


by Impontual




(...)
Duarte estava agora a aguentar toda aquela cena, completamente virado para dentro, da mesma maneira que aguentava tudo. As palavras "ainda há pouco pedias a Deus por sinais" abriram caminho pela sua mente como grotescas enguias nadando em águas pesadas cheias de algas negras ondulantes, rodopiando e redemoinhando à volta umas das outras. Agarrou com firmeza o último copo, formando com ele uma dupla compacta: solitários, sofredores em silêncio, devoradores de vidas inconsequentes. Era difícil abandonar-se, render-se. No fim do dia tinha sempre vontade de dormir sozinho. Despiu-se e encheu a banheira. Ficou de molho durante imenso tempo, folheando umas revistas que nem teve o cuidado de não molhar. Bebericou as últimas gotas de bourbon que repousavam no fundo do copo. Na boca ficou-lhe um travo a chuva. Quando sentiu que a água quente tinha cumprido o seu papel, aliviando-lhe a tensão das pernas e concentrando-a no sexo, masturbou-se, arqueando o corpo no momento crucial para romper a água e ejacular para o ar. Para espanto seu, uma gota de esperma bateu na lâmpada pendurada no tecto, com um som crepitante, projectando uma sombra trémula e fugidia.

- "Deus queira que Deus não exista, Deus queira que Deus não exista", vociferou de olhos semi-cerrados


junho 16, 2017

psycho killer (parte 2)

© Kelly Reemtsen

Duarte acendeu o isqueiro. O anjo aproximou-se e acendeu o cigarro. Confirmou que a voz de anjo conduzia mesmo a um anjo. Cabelo negro, brilhante, pouco abaixo do ombro, olhos verdes, lábios de contornos perfeitos. Um rosto que no seu todo emitia uma aura, como é expectável num ser divino. Vestido preto, pouco acima do joelho, e costas desnudadas de pele brilhante, parecendo seda.

- por favor, sirva-me outro, e outra bebida para a senhora.

O intuito era claro, perceber se de facto estava na presença de uma mulher, um anjo, ou era uma visão fruto do álcool.

- a senhora tem nome?
- Sara. Mas o nome não faz a pessoa. É o inverso, a pessoa é que faz o nome. Ou seja, é o que o faz que conta.
- pois é... Eu sou Duarte, e o que faço está à vista.
- não se martirize, conheço o género. O meu pai morreu dessa morte lenta.

Ficou aquele silêncio audível, cómico até, de duas pessoas que querem falar mas não sabem o que dizer, partilhado com sorrisos.

- sabes...
- não diga nada. Eu sou tola, e acabo sempre por me apaixonar por quem... enfim, por quem já tem problemas que chegue.

Duarte estava sem palavras. Um anjo apaixonar-se por ele? Afinal Deus existia, era o sinal. Tamanha beleza não precisava de palavras, não queria saber nada dela, só ama-la em seus braços.

- desculpe, isto é repentino. É um disparate, mas acho sempre que posso salvar pessoas, talvez por não ter salvo o meu pai.
- confesso que nem sei o que dizer...
- não diga nada, vamos começar do principio, por favor!

Neste mesmo instante, dois homens de gabardine creme aproximaram-se. Um deles algemou Sara. Num gesto repentino Duarte levantou-se, mas logo sentiu a mão do segundo homem a empurra-lo de forma ligeira para o banco.

- fique sentado, tenha calma.
- mas afinal que palhaçada é esta! - gritou Duarte
- Já lhe explico, acalme-se. Antunes leva-a para o carro.

Sara olhou para trás, para Duarte, e sorriu. Mandou-lhe um beijo.

- faz o favor de me dizer quem é, e o que é que se passa aqui?
- acabei de lhe salvar a vida...
- o Sr. é louco, e vai ter que se explicar.
- acalme-se se faz favor. Sou o Inspector I., trabalho na Polícia. Esta senhora é uma psicopata, e assassina. Estamos em crer que matou 6 homens, todos alcoólicos.
- matou? Como?
- seduzia-os. Levava-os para sua casa, drogava-os, e depois ainda com vida cortava-os aos bocados. É como lhe digo, acabei de lhe salvar a vida.

Duarte olhou para o barman, e fez sinal.

- mais um, puro, por favor.
- ouça o álcool vai matá-lo. Hoje salvei-lhe a vida, mas do álcool preciso da sua ajuda, preciso da sua vontade de viver.
- Inspector, estou cansado desse discurso moral. E afinal o que lhe interessa a minha vida?

Neste instante o Inspector já tinha virado costas. Mas Duarte ainda ouviu as suas palavras:

- Ainda há pouco pedias a Deus por sinais. Não consigo dar-te sinal maior.

Fim.



psycho killer
by
Talking Heads


bom seria que o Impontual escrevesse o epílogo desta pequena brincadeira.

talvez o whiskey fosse ordinário, e o Duarte alucinou. Mas mais cego é o que não quer ver, ou teve mais sorte que juízo, ou voçês é que sabem...

e se Deus existisse assim mesmo?













junho 13, 2017

psycho killer (parte 1)


©Kelly Reemtsen

Quando se tem um problema, uma dependência, de álcool, qualquer bar recôndito, numa qualquer cave de prédio, assume contornos de paraíso reconfortante. Foram os pensamentos de Duarte ao descer os degraus escuros, iluminados apenas pelo néon azul sumido que dizia "Bar". A fraca luz continuava no interior. Não prestou atenção ao seu interior, caminhou rápido para um banco alto ao balcão.  Puxou de uma nota, largou-a e disse:

- Whisky barato, e vá enchendo.

O barman, já grisalho, não largou o pano dos copos, fitou-o, e leu-o de cima a baixo, treinado pela experiência.

- Boa noite. Tem preferência de marca? Gelo?
- Não, e não é preciso gelo.

Enquanto servia, atalhou:

- Fechamos às quatro.

Reconheceu logo os traços de um alcoólico, a rapidez em ser servido, o alhear do espaço envolvente, a nota à frente, gestos e gestos já gastos à sua vista.

Duarte levou o copo à boca e logo sorriu. Só o cheiro forte já o acalmava, o sabor destilado encheu-lhe o corpo. Acalmou ao ver o fundo turvo do copo. Ganhou novamente o controlo das suas mãos trémulas.

- Peço desculpa. Boa noite. Podia servir-me outro?

Não levantou a cabeça do balcão em madeira gasta disfarçada com verniz, também ele já gasto. Tinha vergonha, da sua figura débil e dependente, da sua falta de maneiras, e no fundo do resto de homem em  que se tinha transformado.

- Aqui tem.
- Obrigado, agora já agradecia duas pedras de gelo.

Sempre sem tirar os olhos do copo, do balcão e agora do maço de cigarros que tinha pousado, Duarte sentia o corpo retomar à normalidade. A cabeça já não estava pesada, as mãos já não termiam. A música que passava era Sinnerman de Nina Simone. Duarte sorriu, lembrou-se do seu início: "oh Sinnerman, where you gonna run to?". Já sei meu Deus que sou pecador. Já sei, pensou. Devias mandar-me outros sinais, e não evidências. Pensar em Deus, pensar em como tinha chegado aquela cave, pensar em como a sua vida era ela própria uma cave escura, faziam doer a cabeça cansada, por isso resolveu levantar a cabeça e ver em volta, procurando distracção.

Rodou à direita. Era só mais um bar, escuro, com jazz rouco em colunas velhas. Uns quadros com fotografias de mestres como Miles Davis e Louis Armstrong. Meia dúzia de mesas pequenas, com candeeiros. Uma espécie de palco, um estrado, onde outrora tocaram aspirantes a mestres. Numa mesa um casal, trocam beijos e mãos, e gastam o pouco que sobra do rendimento. Noutra mesa, mais abastados, um casal gay que mantem distância física, mas que os olhos não escondem outras luxúrias.

Igual a tantos outros buracos negros, onde Duarte se arrasta faz dois anos, num suicídio lento, de comiseração degradante.

- Boa noite. Dá-me lume?

A meiguice da voz fez Duarte voltar-se rápido para a sua esquerda. Uma voz que indiciava a presença de um anjo.

(para continuar noutro post)


Sinnerman by
Nina Simone